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OS SENHORES DO DESTERRO DE PORTUGAL. Judeus Portugueses em Veneza e Ferrara em meados do séc. XVI

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António Manuel Lopes Andrade

Universidade de Aveiro[1]

 

 

A experiência e o capital adquiridos pelos judeus portugueses, sobretudo desde os primórdios da expansão portuguesa no século XIV, formaram uma comunidade capaz de aproveitar as novas e irrecusáveis oportunidades que iam surgindo em África, no Oriente, no Brasil e também nas colónias espanholas. A descoberta do caminho marítimo para a Índia constituiu um marco decisivo que veio revolucionar por completo todo o sistema em que assentava o comércio mundial de especiarias.

No virar do século, Portugal detém o mais vasto império alguma vez alcançado, assente numa relação bastante estreita e frutuosa entre poder e saber, que propiciou um avanço extraordinário em múltiplas áreas do conhecimento entre as quais se destacam a astronomia, a cartografia, a matemática ou a medicina. Os judeus portugueses, entretanto convertidos à força em cristãos-novos, mantêm-se, na sua grande maioria, no país e não são alheios a este projecto grandioso, em que participam com empenho e dedicação, tanto na produção de riqueza como de saber.

A expulsão dos judeus do território português, em 1497, executada de forma mais simulada que efectiva, e a tardia implantação da Inquisição no nosso país, deu azo a que as primeiras décadas de Quinhentos constituíssem uma época de relativa paz e prosperidade para os cristãos-novos residentes em Portugal. Na verdade, a conversão forçada dos judeus, por imposição de D. Manuel, coincidiu com o momento áureo da expansão portuguesa e, naturalmente, foi nesse meio e nessas circunstâncias que os cristãos-novos se envolveram, desde o primeiro momento, no comércio dos produtos da metrópole e das colónias, em particular as drogas e especiarias (onde a pimenta sempre ocupou um lugar ímpar), o sal e o açúcar, e em todas as actividades que lhe estavam associadas. De facto, não é por acaso que são cristãos-novos portugueses, em grande medida, os homens que, em Lisboa e Antuérpia, lançam as bases do grande comércio à escala mundial.

A participação destacada desta comunidade no comércio transoceânico português e, mais tarde, espanhol, ao longo do século XVI, é uma das actividades mais importantes que contribui, decisivamente, para a criação e fixação de importantes comunidades judaico-portuguesas em Londres, Antuérpia, Veneza, Ferrara ou Ancona, desde as primeiras décadas de Quinhentos. Assiste-se a uma fase inicial em que se dá o estabelecimento de alguns mercadores judaico-portugueses nas novas praças comerciais, que depois abre caminho a uma segunda fase, menos selectiva, na qual os cristãos-novos menos favorecidos tentam a sua sorte e prosseguem o caminho já antes trilhado pelos mercadores.

O florescimento económico, alicerçado sobretudo na intensa actividade comercial, depressa criou as condições favoráveis para que cada vez mais membros desta comunidade aproveitassem as oportunidades que se lhes ofereciam por forma a alcançar uma posição cimeira em várias áreas, tanto dentro como fora de Portugal. A própria conversão geral contribuiu, por estranho que isso possa parecer, para abrir as portas de algumas actividades aos cristãos-novos, que antes estavam interditadas aos judeus. No comércio e na medicina, na literatura e na alta finança, na ciência e na universidade, na filosofia e na imprensa, nestas e noutras áreas, não será difícil encontrar vários nomes de judeus ou cristãos-novos portugueses que se distinguiram, nacional e internacionalmente, nos séculos XV e XVI.

Uma grande parte dos judeus portugueses que se vão notabilizar na diáspora sefardita são filhos desta conjuntura extraordinária que fazia do império português o mais vasto alguma vez alcançado. Os cristãos-novos que trilharam os caminhos do desterro, sobretudo a partir dos primeiros anos da década de trinta, manifestam geralmente orgulho neste passado glorioso que foi também o seu e para o qual deram uma contribuição notável a vários níveis.

A intolerância religiosa, o fanatismo e as terríveis perseguições de que os cristãos-novos foram um alvo privilegiado, em particular após o estabelecimento da Inquisição em Portugal não constituíram motivo bastante para que muitos dos que partiram renegassem para sempre o país que os viu nascer e crescer. O exílio teve inclusivamente o condão de, por uma parte, reforçar mais ainda a união entre os membros da comunidade perseguida e, por outra, de manter bem viva, na sua memória, a recordação da terra natal.

Não se estranha, por conseguinte, que Duarte Pinel, alias Abraão Usque, tenha usado em Ferrara, como marca de impressor, a imagem da esfera armilar, um notável símbolo manuelino associado à própria ciência náutica e ao extraordinário poderio político, económico e científico, proporcionado pelas navegações portuguesas. A esfera armilar, em simultâneo instrumento de observação e modelo do próprio universo, foi adoptada por D. Manuel como emblema pessoal, dando assim a imagem perfeita da vastidão geográfica do império lusitano.

O estabelecimento da Inquisição, em 1536, e a subsequente transferência da Universidade de Lisboa para Coimbra, em 1537, correspondem, no fundo, à concretização dos desígnios de D. João III. Estas iniciativas régias, todavia, acarretaram graves e profundas consequências, tanto para o país, quanto para a comunidade judaico-portuguesa. A relação estreita entre poder, saber e riqueza, em que assentara o sucesso do império marítimo português, acabava de sofrer um rude golpe. Com os judeus portugueses que eram forçados a abandonar, em cada vez maior número, a terra que os vira nascer, partia também uma parte importante da nação lusitana. Com eles partia, sem dúvida, uma cultura, uma língua e uma experiência únicas. Uma parte substancial do saber e da riqueza nacional acompanha os numerosos cristãos-novos que rumam a Antuérpia ao longo das décadas de trinta e quarenta.

As actividades da pioneira e empreendedora comunidade judaico-portuguesa, estabelecida na plataforma comercial de Antuérpia, desde as primeiras décadas do século XVI, é um exemplo paradigmático desta realidade. Há um núcleo reduzido de grandes mercadores cristãos-novos, encabeçado por Diogo Mendes, que criam, desde muito cedo, as condições que tornaram possível, alguns anos mais tarde, a fuga generalizada dos cristãos-novos, seguindo as mesmas vias de comunicação das mercadorias. Foram os membros do chamado Consórcio da Pimenta, que estiveram na base do grande comércio internacional associado, primeiro, às especiarias, em particular à pimenta, e depois alargado a muitos outros produtos provenientes da metrópole e das colónias portuguesas.

Mas são também estes mesmos homens que assumem um papel decisivo e incontornável na diáspora sefardita, organizando e financiando redes de apoio à emigração dos seus conterrâneos menos favorecidos. Nessa primeira metade de Quinhentos foram lançadas as sólidas raízes de uma estrutura alargada de base comercial, cultural e religiosa, assente em redes familiares, cujos membros se encontravam dispersos pelas grandes praças comerciais europeias.

 

Amato Lusitano (João Rodrigues de Castelo Branco), Duarte Gomes (Salomão Usque–David Zaboca), Diogo Pires (Isaia Cohen), Duarte Pinel (Abraão Usque), Manuel Rodrigues (Manuel Brudo), Luís Nunes de Santarém, Manuel Reinel (Abraham Abendana) ou Samuel Usque contam-se entre aqueles que tomaram a dolorosa decisão de abandonar o país e constituem, precisamente, alguns dos mais notáveis Senhores do Desterro de Portugal. Entre as décadas de trinta e quarenta, todos eles, sem excepção, seguem os penosos caminhos do exílio rumo ao empório de Antuérpia.

Entre os desterrados encontram-se, naturalmente, algumas das figuras de proa da cultura portuguesa do século XVI. Amato Lusitano, Diogo Pires, Duarte Gomes, Luís Nunes e Manuel Reinel haviam obtido, em conjunto, a sua formação superior, no Estudo de Salamanca, em Artes e Filosofia, e Medicina. Alguns deles continuaram depois os seus estudos na Universidade de Lisboa, que Luís Nunes e Duarte Gomes honraram com o seu magistério, até à transferência definitiva da instituição para Coimbra.

O percurso atribulado destes homens retrata, como é notório, a fuga irreparável do saber. O desenvolvimento cultural e científico do país perde, por muito tempo, o fulgor e o dinamismo que antes revelara. Mesmo os colegas que ficaram, como António Luís, Jerónimo Cardoso, Pedro Nunes ou Tomás Rodrigues da Veiga, ou foram vítimas de processos inquisitoriais, ou viram pelo menos o seu pensamento e acção fortemente condicionados pela censura e pelo medo de eventuais represálias, que podiam atingir, inclusive, cristãos-velhos e estrangeiros, como se verificou mais tarde nos processos inquisitoriais instaurados aos mestres do Colégio das Artes ou ao célebre Damião de Góis.

Em Lisboa e em Antuérpia, a acção da família Mendes-Benveniste assume um papel de indiscutível importância para a comunidade judaico-portuguesa. A morte de Francisco Mendes, em Janeiro de 1535, constituiu um golpe profundo e inesperado, não só na Casa Mendes-Benveniste, mas na própria liderança, organização e estratégia dos cristãos-novos, que no ano seguinte assistem incrédulos ao tão temido e anunciado estabelecimento da Inquisição em Portugal, vendo assim malogradas todas as suas diligências para que tal não viesse a suceder.

Como se não bastasse, a imensa fortuna que Francisco Mendes havia deixado em testamento à viúva, D. Beatriz de Luna, e à sua única filha era alvo de uma cobiça cada vez maior. Na sequência da morte de Francisco Mendes, D. João III diligenciou sem demora no sentido de procurar manter em Portugal a fortuna legada pelo famoso mercador-banqueiro lisboeta. A estratégia passava por tentar assegurar que a jovem filha de Francisco Mendes e de Beatriz de Luna, herdeira de metade da fortuna, se mantivesse no reino até ao momento em que, convenientemente, casaria com alguém da casa real[2].

Beatriz de Luna ofereceu forte resistência à concretização dos anseios do monarca português. Ao abandonar para sempre o país, por volta de meados de 1537, deita a perder, irremediavelmente, os planos de D. João III. A ‘Senhora’, como ficou conhecida entre as comunidades sefarditas, embarca em Lisboa na companhia da pequena filha, da irmã, Brianda de Luna, e de João e Bernardo Micas, os seus dois sobrinhos, filhos do antigo lente do Estudo Geral, o prestigiado Doutor Agostinho Micas. Algum tempo depois, após uma passagem por Londres, aportaria em Antuérpia, onde passou a administrar os negócios da família em conjunto com o seu cunhado, Diogo Mendes.

Do mesmo modo, quase todos os Senhores do Desterro de Portugal se estabeleceram em Antuérpia, mais ou menos duradouramente, antes da passagem subsequente à península itálica. E, desde logo, alguns houve que deixaram a sua obra impressa. Nessa cidade, Amato publica o seu primeiro trabalho científico, em 1536, e a poesia latina e grega do humanista Diogo Pires, rapidamente integrado no círculo erasmista de Lovaina-Antuérpia, começa a aparecer estampada em obras de autores consagrados[3].

 

Refira-se, porém, que não é nosso propósito, de momento, analisar em pormenor a acção dos membros mais destacados da Nação Portuguesa, em Antuérpia. Pretende-se apenas traçar, sumariamente, o percurso seguido por Duarte Gomes, alias Salomão Usque–David Zaboca, e por Duarte Pinel, alias Abraão Usque, antes da chegada a terras italianas. Mais adiante, proceder-se-á à análise comparativa do importante papel que um e outro, em Veneza e Ferrara, viriam a desempenhar no plano cultural e literário, a partir de meados do século XVI.

 

Aron Leoni, um dos investigadores que mais tem contribuído para traçar, com seriedade e rigor, a história da Nação Portuguesa, acaba de publicar um trabalho notável onde apresenta, com sólida base documental, novíssimos dados sobre a composição e as actividades da família de Duarte Gomes[4]. Sabe-se, actualmente, que três irmãos – Duarte Gomes, Tomás Gomes e Guilherme Fernandes – ocupavam funções do mais alto nível ao serviço da Casa Mendes-Benveniste. Guilherme Fernandes entrou ao serviço de Francisco Mendes nos tempos áureos em que este estava estabelecido em Lisboa e o irmão, Diogo Mendes, em Antuérpia. Corria o ano de 1525, quando começou a carreira daquele que foi um dos feitores mais importantes da família. É significativo que Diogo Mendes tenha determinado no seu testamento que a administração dos negócios seria entregue à sua cunhada, D. Beatriz de Luna, que seria assistida nessa missão pelo seu sobrinho, João Micas, e por Guilherme Fernandes[5].

A presença de Duarte Gomes e da família em Antuérpia está também documentada pelas interessantes declarações prestadas por Luís Franco, no Tribunal do Santo Ofício de Lisboa, no dia 10 de Setembro de 1574[6]. Este cristão-novo, natural de Aveiro, havia regressado pouco antes de Ferrara, pelo que as suas palavras denotam um bom conhecimento da comunidade judaico-portuguesa do Ducado Estense. O depoimento revela que Duarte Gomes havia casado com uma filha do livreiro lisboeta, João Fernandes, e apresenta uma descrição pormenorizada dos descendentes do «fisiquo natural de Lixboa».  O testemunho reveste-se de grande importância, porquanto dá a conhecer que uma das quatro filhas de Duarte Gomes estava casada com um criado do Duque de Ferrara, o que vem confirmar as excelentes relações de que Duarte Gomes sempre desfrutou nos círculos mais restritos da Corte de Ferrara.

Do mesmo modo, no segundo dos dois processos instaurados ao mercador português pelo S. Uffizio di Venezia, em 1568, o mercador florentino Lorenzo Guicciardini[7] declarou tê-lo conhecido muitos anos antes na cidade de Antuérpia[8]. Aliás, comprova-se que Duarte Gomes já estava ao serviço de D. Beatriz de Luna, se não antes, pelo menos em 1544, porque aparece descrito num documento desse ano como «gouvernant la maison de feu Diego Mendiz»[9].

Por Antuérpia passaram também Abraão e Samuel Usque, antes de se encaminharem para terras italianas. Sabe-se que Abraão estava em Antuérpia por volta de 1549, sendo lícito pensar que terá partido para sul, não muito tempo depois[10]. Já a presença de Samuel nas margens do Escalda tem de ser forçosamente anterior à data da morte de Diogo Mendes, que ocorreu por volta do mês de Agosto de 1543. Na verdade, é ponto assente que o famoso cronista, e também mercador, esteve ao serviço de Diogo Mendes e, mais tarde, da sua viúva, D. Brianda de Luna[11].

A comunidade judaico-portuguesa estabelecida em Antuérpia assistiu a uma progressiva degradação da sua segurança e liberdade ao longo da década de trinta, sob a pressão das constantes iniciativas tuteladas pela regente, Maria de Hungria, e pelo seu irmão, Carlos V. No final dessa década, ganha forma e acentua-se um largo movimento de transferência de pessoas e capitais para terras italianas.

Veneza, Ferrara e Ancona são os três destinos prioritários, tanto da comunidade judaico-portuguesa que já estava estabelecida em Antuérpia, como também dos compatriotas que continuavam, em grande número, a desembarcar nas margens do Escalda, provenientes de Portugal. Foram vários os estados italianos que tudo fizeram no sentido de procurar atrair para os seus territórios os membros da comunidade judaico-portuguesa estabelecida em Antuérpia, através da concessão de privilégios, garantias e isenções.

Ercole II, o Duque de Ferrara, foi o soberano que mais êxito obteve, desde o final da década de trinta, com a sua política activa e empreendedora, para atrair os mercadores portugueses ao seu ducado. A própria Cúria romana, ao mesmo tempo que prosseguia as negociações com os representantes de D. João III e dos cristãos-novos portugueses, com o objectivo de estabelecer a Inquisição em Portugal, autorizava e favorecia a fixação dos mercadores cristãos-novos no estado papal de Ancona.

À semelhança da estratégia posta em prática pelo Duque de Ferrara, Cosimo I, grão-duque de Toscana, procura atrair, de forma muito selectiva, alguns dos mais destacados membros da comunidade judaico-portuguesa, estabelecidos tanto em Antuérpia como em Portugal. Com esse objectivo definido, concede salvos-condutos, com amplas garantias e privilégios, a alguns destacados judeus portugueses e respectivas famílias, tanto a mercadores, como a intelectuais de renome, na expectativa de os atrair aos seus domínios.

Não deixa de ser significativo o facto de Cosimo I ter decidido conceder salvo-condutos às duas irmãs, Beatriz e Brianda de Luna, ou ao antigo colega salmantino de Duarte Gomes, o notável médico Amato Lusitano[12]. Entre o final de Fevereiro e o começo de Março de 1549, foi atribuído um salvo-conduto a Fernando Mendes, que se havia de distinguir como juiz da Rota, e a Tomás Gomes, que o podia estender ao seu parente Duarte[13]. Trata-se, evidentemente, dos dois irmãos Tomás e Duarte Gomes[14]. A chegada deste último à península italiana deve ter ocorrido, com grande probabilidade, no final da década de quarenta.

Os Mendes-Benveniste, ao longo da década de quarenta, também foram abandonando, pouco a pouco, a praça de Antuérpia e estabeleceram-se sobretudo em Veneza e Ferrara, antes de partirem para Constantinopla[15]. Beatriz de Luna encarrega pessoalmente Duarte Gomes de tratar da venda da mansão de Antuérpia, que acabaria por ser adquirida por três flamengos, incumbindo o seu fiel agente de acautelar eventuais dificuldades que Brianda de Luna, a sua irmã desavinda por questões de heranças, poderia causar à boa conclusão do negócio[16].

 

Nos primeiros anos da década de cinquenta, Duarte Gomes viveu entre Ferrara e em Veneza, onde se veio a estabelecer em permanência com os seus três filhos mais velhos «in contra’ de Santa Maria Formosa al ponte del Anzelo, in la casa grande sora l’intagliador»[17]. No Verão de 1552, Beatriz de Luna abandona a Sereníssima e parte definitivamente para Constantinopla, onde viria a adoptar o nome hebraico de Grácia Nasci. Para trás deixava os antigos agentes comerciais, a quem reconfirmou a qualidade de seus procuradores legais[18]. Duarte Gomes e o irmão Guilherme Fernandes, bem como Agostinho Henriques, eram os três homens a quem passava a caber, a partir desse momento, a gestão dos negócios da Casa Mendes-Benveniste[19].

 

Salomão Usque publicou, em 1567, nos prelos venezianos de Niccolò Bevilacqua, a primeira tradução para língua castelhana de parte do Canzoniere de Petrarca[20]. Os exemplares conhecidos deste livro denotam uma única mas significativa diferença entre si: uns apresentam no frontispício o nome do tradutor como «Salusque Lusitano», enquanto outros têm impresso «Salomon Usque Hebreo». A pessoa que está por detrás deste nome, que alterna entre o qualificativo de português e de hebreu, não tem sido fácil de identificar, ainda que seja relativamente consensual atribuir a esta figura a condição de cristão-novo português.

Salomão Usque foi, desde sempre, uma figura bastante controversa, cuja análise tem suscitado aos investigadores muitas dúvidas. Os problemas agudizam-se, quando se procura identificar o autor da tradução castelhana da primeira parte do Canzoniere de Petrarca ou equacionar as eventuais relações entre os três célebres cristãos-novos portugueses que ostentam o mesmo apelido: Abraão, Samuel e Salomão Usque.

Os estudiosos dividem-se entre aqueles que defendem e aqueles que negam a tese da identificação entre o poeta Salomão Usque e o mercador Duarte Gomes, agente comercial e pessoa da inteira confiança da famosa D. Grácia Nasci. Não obstante a longa e acesa discussão sobre o assunto, estamos em crer que, actualmente, se encontram reunidos dados suficientes para se poder afirmar, sem receio, que Duarte Gomes e Salomão Usque são a mesma pessoa[21].

Amato Lusitano e Girolamo Ruscelli, duas figuras das relações próximas de Duarte Gomes, apresentam-nos dois testemunhos coincidentes, irrefutáveis e inequívocos de que Duarte Gomes era um exímio tradutor de Petrarca para a língua castelhana[22].

Convém notar, porém, que a produção literária assinada com o nome Salomão Usque não se limitou apenas à referida tradução petrarquiana[23]. Foi também autor de uma tragédia intitulada Ester, a qual foi representada pela primeira vez no ghetto de Veneza, por ocasião da festa de Purim, circa 1560. Segundo a tradição, esta peça foi escrita por Salomão Usque com a ajuda de Lazaro di Grazian Levi. A obra primitiva, da qual se conhece apenas uma adaptação, publicada mais tarde pelo ilustre rabino Leon Modena, constitui um dos primeiros dramas hebraicos em vernáculo[24].

Sob o nome de «Salusque Lusitano», encontramos também um soneto em castelhano, a abrir os Comentarios de Alfonso de Ulloa[25]. Neste breve poema dirigido ao leitor, tece um rasgado elogio a Ulloa por ter dedicado a sua obra a D. Luis de Zúñiga y Requesens. Atribuem-se ainda a Salomão Usque dois outros poemas em italiano: a Canzone sull’opera de’ sei giorni, dedicada ao cardeal Carlo Borromeo, publicada numa antologia compilada por Cristoforo Zabata sob o nome de «Salamon Usque Ebreo»[26]; e a Canzona allo Illustrissimo et eccellentissimo Signor Duca d’Urbino, Guidobaldo II Montefeltro, cujo autor aparece mencionado no final da composição simplesmente como «Salamone Usque»[27].

A produção literária publicada sob o nome de Salomão Usque (incluindo todas as variantes) resume-se, portanto, à tragédia perdida Ester e a três composições poéticas, um soneto em castelhano e duas canções em italiano, à qual acresce, evidentemente, a tradução castelhana da primeira parte do Canzoniere de Petrarca, que é a sua obra-prima.

Torna-se imperioso, por conseguinte, reflectir sobre as razões que terão levado Duarte Gomes a assumir, em parte significativa da sua obra, os pseudónimos «Salusque Lusitano», «Salomon Usque Hebreo», ou simplesmente «Salamone Usque». São vários os factores, em nossa opinião, que podem ter contribuído para que o ilustre mercador português assim tivesse procedido.

Não são conhecidas, em concreto, as razões que o terão levado a escolher o apelido Usque, mas talvez possa haver aqui uma espécie de jogo com os nomes dos seus dois famosos conterrâneos, Samuel e Abraão Usque. O modo como Duarte Gomes aglutina Salomon Usque na forma reduzida Salusque, de que se não conhece outro registo, a não ser este, assim parece também indiciar.

Têm sido aventadas várias hipóteses, nem sempre concordantes, para traçar as relações possíveis entre os três cristãos-novos portugueses que ostentam o apelido Usque. Estamos em crer que a forma Salomon Usque, nas suas três variantes, não passa de um engenhoso pseudónimo literário, pelo que não parece ser lícito equacionar, nessa base, qualquer tipo de relação familiar entre Duarte Gomes e Abraão/Samuel Usque. Os documentos que apresentam Zaboca como o apelido de família de Duarte Gomes invalidam, à partida, qualquer relação familiar directa com os outros dois Usque.

Até prova em contrário, talvez seja mais prudente não proceder ao estabelecimento de relações apenas com base na semelhança do apelido. O avanço da investigação, porém, ainda não foi suficiente para aclarar por completo que tipo de relação familiar, se acaso existe, pode ser estabelecida entre os Usques. Ainda assim, é possível avançar com alguns dados que nos permitem analisar, com relativa segurança, a questão das supostas relações familiares.

Antes de mais, devem colocar-se algumas reservas à teoria formulada por C. Roth de que os pais de Abraão Usque teriam vindo provavelmente de Espanha, em 1492, e de que o apelido Usque deriva do nome da cidade de Huesca[28]. A hipótese de Roth, que nunca foi comprovada documentalmente, tem obtido aceitação com a indicação adicional de Yerushalmi de que é um apelido muitíssimo raro, de que quase não há memória[29]. Sabe-se, presentemente, que não é bem assim. De entre os judeus que viviam em Portugal, em data anterior a 1492, foi possível rastrear onze ocorrências do apelido Usque[30]. Convém assinalar, além disso, que os próprios nomes Abraão e Samuel Usque se encontram mencionados entre os registos:

 

  • 1441Abraão Usque e Gonçalo Gil arrendam as sisas, a dízima de pescado e os serviços real e novo dos judeus de Santiago do Cacém, Sines e Colos por 50.630 reais[31];
  • 1441José Usque e Samuel Usque, na localidade de Santiago do Cacém[32];
  • 1442Isaac Usque, na localidade de Azambuja[33];
  • 1442Jacob Usque, sapateiro em Figueiró[34];
  • 1442Jaque Usque, tecelão, David Usque, alfaiate, e José ben Usque, na localidade de Mértola[35];
  • 1462Samuel Usque e Haim Usque, ourives em Coimbra, recebem privilégios[36];
  • 1490Isaac Usque, na localidade de Olivença [37].

Provou-se recentemente que resulta impossível Abraão ser pai ou irmão de Samuel Usque[38]. Por um lado, é o próprio Abraão quem afirma ser filho de um judeu português chamado Selomoh[39]; por outro, Samuel declara num documento notarial, com a data de 1552, ser «filius quondam Abraham»[40]. Ora, nesse ano, Abraão Usque estava, ao que se sabe, de perfeita saúde. Do cruzamento destes dados resulta, naturalmente, que Abraão e Samuel não podem ser, nem irmãos, nem pai e filho. Eis o ponto actual da situação no que respeita às eventuais relações familiares entre Abraão e Samuel Usque.

Quanto à suposta proveniência dos reinos de Castela ou Aragão, estamos em crer que Duarte Gomes/Salomão Usque e Abraão Usque são judeus portugueses, descendentes de outros que já habitariam em Portugal muito antes de 1492. Não obstante o pai de Abraão Usque ser qualificado como português, não se pode excluir, como é evidente, que os seus antepassados tenham provindo dos reinos vizinhos em tempos mais recuados. Já a situação de Samuel Usque parece ser diferente, pois ele afirma no prólogo da Consolação que os seus antepassados eram provenientes de Castela[41].

 

O tradutor da primeira parte do Canzoniere de Petrarca apresenta-se no frontispício da obra, ora de uma, ora de outra forma, através das variantes «Salomon Usque Hebreo» e «Salusque Lusitano». A alternância entre Hebreo/Lusitano representa, na essência, a  própria natureza de Duarte Gomes como judeu português. A este propósito, convém recordar que os judeus portugueses em diáspora publicam, por regra, os seus livros com a indicação explícita da nacionalidade. Basta recordar os exemplos de Amatus Lusitanus, Manuel Brudus Lusitanus, Didacus Pyrrhus Lusitanus ou Eduardus Pinellus Lusitanus/Abraham Usque Portugues.

Amato Lusitano, cujo nome de baptismo é João Rodrigues de Castelo Branco, constitui um exemplo paradigmático, já que apenas utilizou o nome de baptismo no seu primeiro livro publicado ainda em Antuérpia, em 1536[42]. A partir desta data adoptou para sempre o nome latino Amatus, procedendo à incorporação da menção da nacionalidade no próprio nome, pelo qual passou a ser universalmente conhecido[43].

Julgamos, porém, que há um argumento ainda mais forte para justificar a adopção dos pseudónimos por parte de Duarte Gomes. Os humanistas adoptavam, com frequência, pseudónimos literários para ocultar a sua identidade. As trocas identitárias eram cultivadas sob uma perspectiva essencialmente lúdica que assumia, por vezes, uma relevância e significação muito particular no seio do grupo em que se inseriam os indivíduos. Por vezes, apenas os elementos de um determinado círculo literário conheciam ou eram capazes de reconhecer a identificação da pessoa que se escondia por detrás do pseudónimo. Não é possível, uma vez mais, apresentar melhor testemunho desta prática que o do próprio Amato Lusitano, um judeu português com uma sólida formação humanística. No seu In Dioscoridis, cuja editio princeps veneziana data de 1553, apresenta o seguinte diálogo figurado entre ele e o médico alemão Ioannes Agricola Ammonius:

 

AGRICOLA – Ita certe a commentariis tuis acceperam, in quibus te Ioannem Rodericum Castelli Albi Lusitanum nominatum inueni. Nunc uero quum Amatus potius appellari mauis, in dubium uertebam  an tuum illud esset opus.

AMATVS – Nouum non est uiros rei literariae deditos, sua plerumque immutasse nomina, ut apud Paulum Iouiam, uirum doctissimum, legitur in eo libro, quo de imaginibus doctissimorum uirorum agit.[44]

AGRICOLA – Assim tinha percebido, de facto, a partir dos teus comentários em que te encontrei com o nome de João Rodrigues de Castelo Branco. Mas agora, como antes queres ser chamado Amato, estava em dúvida se era tua aquela obra.

AMATO – Não é novo os homens dados às letras trocarem muitas vezes os seus nomes, tal como se lê na obra de Paulo Jóvio, homem muito douto, no livro em que traça o retrato de varões muito doutos.

 

Note-se o cuidado de Amato em pretender evitar falsas atribuições de autoria ao seu primeiro trabalho de Antuérpia, em virtude de ostentar um nome distinto daquele que mais tarde veio a adoptar. Neste capítulo, mostrou-se bem mais cuidadoso e precavido do que Duarte Gomes, o qual nunca esclareceu, em parte alguma, ser o autor da tradução castelhana do Canzoniere de Petrarca. Amato não tem dúvidas em afirmar que os homens de letras utilizam pseudónimos literários e ilustra essa prática com os exemplos constantes da obra em que Paulo Jóvio faz o retrato da vida dos homens ilustres do seu tempo[45].

O uso de pseudónimos literários constituía, nesta época, uma prática generalizada entre os homens que se dedicavam às letras. O próprio Amato demonstra ter uma consciência perfeita de que assim acontecia com muitos contemporâneos seus. Um outro judeu português, Diogo Pires, começou por adoptar na sua obra o nome Didacus Pyrrhus Lusitanus, mas posteriormente resolveu transformá-lo em Flauius Iacobus Eborensis, que inscreveu, aliás, no frontispício da sua obra-mestra, o Cato Minor, dada à estampa nas duas edições venezianas de 1592 e 1596[46].

A mudança de Diogo em Jacob e de Pires em Flávio não constitui apenas a mera latinização do nome de baptismo, já que se adopta uma onomástica caracteristicamente judaica[47]. A formação marcadamente humanista de Diogo Pires não o impediu, tanto quanto se sabe, de ter abraçado o judaísmo na diáspora, tendo acabado por adoptar também o nome hebraico de Isaia Cohen. Amato Lusitano e Diogo Pires têm em comum com Duarte Gomes o facto de serem judeus portugueses e humanistas, além de terem sido colegas do feitor de D. Grácia Nasci no Estudo de Salamanca.

Há também outros humanistas italianos, com quem Duarte Gomes travou relações muito próximas, que demonstram um verdadeiro prazer, não apenas na simples utilização de pseudónimos, mas no seu uso deliberado como parte integrante de um jogo literário. A ocultação da identidade é uma forma de atingir determinados objectivos, em particular junto dos membros de um grupo mais ou menos restrito. Duarte Gomes é um elemento destacado de um círculo literário veneziano bastante activo desde meados de Quinhentos, o qual integra, para fazer uso das palavras de Amato, vários nomes de «homens dedicados às letras» tão conhecidos como os de Ludovico Dolce, Ortensio Lando, Girolamo Ruscelli, Alonso Núñez de Reinoso ou Alfonso de Ulloa.

As obras destes autores estão repletas de referências cruzadas que nos permitem verificar que mantêm entre si relações literárias intensas e profícuas, como se depreende, por exemplo, das várias menções elogiosas que fazem, expressamente, uns aos outros, da troca de poemas entre os membros do cenáculo, das dedicatórias com que abrem as suas obras, das relações privilegiadas do grupo com o célebre impressor veneziano Gabriel Giolito de Ferrari, que dá à estampa grande parte das suas obras, ou ainda no tratamento preferencial concedido a determinados autores, temas e géneros literários[48].

De entre os membros deste grupo, outros dois, à semelhança de Duarte Gomes, adoptam pseudónimos literários em algumas das suas obras. Girolamo Ruscelli publica uma obra intitulada Secreti di don Alessio Piemontese, cujas quatro partes foram sendo publicadas com múltiplas reedições durante a vida do humanista italiano. Ruscelli assume o pseudónimo de Alessio Piemontese. Apenas alguns elementos do círculo deviam conhecer a verdadeira identidade do autor, que viria a ser revelada unicamente após a sua morte, ocorrida em 1566. Com efeito, volvido cerca de um ano, veio à luz uma nova edição que retirou o verdadeiro autor dos Secreti do anonimato, porquanto ostentava o seguinte título: Secreti nuoui di marauigliosa virtu’ del signor Ieronimo Ruscelli i quali continouando a quelli di donno Alessio, cognome finto del detto Ruscelli, contengono cose di rara esperienza, & di gran giouamento.

Ortensio Lando é outro dos membros consagrados do círculo literário que revela uma predilecção muito particular pelo uso de pseudónimos literários. De facto, pode considerar-se  um mestre do disfarce e da simulação, um exímio criador de personagens e de cenários fictícios, de tal sorte que não se consegue destrinçar, muitas vezes, entre o autor e as personagens por ele engenhosamente elaboradas[49]. Serve-se, por exemplo, do pseudónimo Philalethes Polytopiensis e publica várias obras anónimas ou em nome de outrem, entre as quais figuram duas recolhas famosas de cartas femininas, publicadas em Veneza, cuja autoria, em geral, lhe é atribuída.

Na primeira dessas recolhas, saída dos prelos de Giolito de Ferrari, Lando aparece apenas como a pessoa que coligiu as cartas femininas[50]. No entanto, o leitor mais atento não pode deixar de se intrigar com o teor de alguns poemas publicados na obra, um deles de Ruscelli, que deixam passar, subtilmente, a ideia de que Lando é o autor das missivas. A atribuição da autoria desta obra a Lando é hoje uma questão pacífica para a crítica[51]. A segunda recolha contém, supostamente, as cartas escritas por Lucrezia Gonzaga[52]. Mas, uma vez mais, Ortensio Lando terá posto em prática um sofisticado jogo de troca de identidades, no decorrer do qual redige, a coberto de completo anonimato, as epístolas em nome da própria Lucrezia Gonzaga. A estratégia parece ter sido tão bem urdida que ainda hoje se discute quem terá sido o autor da obra.

Duarte Gomes leva os jogos de troca de identidades tão do gosto de Lando ou de Ruscelli até aos limites da imaginação. A verdade é que trocar de identidade ou possuir vários nomes não é apenas um mero jogo literário para Duarte Gomes, à semelhança do que acontece com os autores italianos. Apresentar-se como «Hebreo» ou como «Lusitano», como judeu ou como cristão, como David Zaboca ou como Duarte Gomes, era um jogo bem real e não isento de perigo, que Duarte Gomes era obrigado a pôr em prática todos os dias da sua existência, tal como a generalidade dos judeus portugueses.

 

Duarte Gomes revela uma subtileza a toda a prova ao adoptar dois pseudónimos que vai usando um pouco indistintamente na sua obra. É como se quisesse continuar na sua criação literária os jogos de dissimulação por que tinha de passar na vida real. Mas não era suficiente. Faltava alguma coisa mais, para que jogo e realidade se confundissem numa teia intrincada em que ele próprio, Duarte Gomes, e o seu alter-ego, Salomão Usque ou Salusque, dialogassem entre si.

O facto de ter sido publicado um poema de Duarte Gomes no início da tradução de Petrarca é, temos de convir, o supremo jogo da simulação em que o autor real aparece numa obra da autoria de um seu heterónimo. É, de facto, assinalável e revela bem a genialidade deste autor. É, por isso, perfeitamente justificada a apresentação integral do soneto que Duarte Gomes endereçou a Salusque Lusitano:

 

DEL SEÑOR DVARTE GOMEZ,
AL EBRO, RIO FAMOSO
en España.

 

GOZATE sacro Ybero, qu’has estado,

Dos siglos con tus ninfas, desseoso

De oyr el cantar graue y amoroso

D’el Toscano Poeta celebrado,

 

Que en riberas del Arno fue criado,

Y à Valclusa venido, valle umbroso,

La vista d’un Laurel verde y hermoso

Lo tuuo luengamente enamorado.

 

Sentiràs pues agora sus concetos,

Càbe tus dulces aguas cristalinas

En muy lindo Romance Castellano.

 

En el qual, ya nos hablan los Sonetos,

Canciones, Mandriales y Sextinas

Merced del buen SALVSQUE LUSITANO.[53]

 

O «Señor Duarte Gomez» enaltece com grande generosidade a tradução em romance castelhano de «Salusque Lusitano». Duarte Gomes dispõe as peças do jogo de forma magistral, ao colocar o seu nome em posição de destaque, a abrir o título da composição, que se fecha, precisamente, com as graças à figura do suposto tradutor, Salusque Lusitano. Mas, a arte refinada de Gomes assoma, de forma quase imperceptível, por detrás da pequena palavra que precede o nome do tradutor. Sob o qualificativo ‘buen’ não será muito difícil vislumbrar o sorriso matreiro do ‘bom’ Duarte Gomes e de todos aqueles que estavam a par de tão sofisticado jogo.

Este soneto de Duarte Gomes está precedido da interessante dedicatória firmada por «Salusque Lusitano», em Veneza, no dia 8 de Agosto de 1567. Nesse texto, Salomão Usque afirma, com justificado orgulho, ser o primeiro a concluir com sucesso uma «Obra en la verdad de muchos desseada, de pocos emprendida, y de ninguno hasta agora acabada.»[54]. Parece travar-se uma espécie de diálogo circular entre Salusque Lusitano e Duarte Gomes, entre a figura da criação literária e a do próprio criador, que logo a seguir é reeditado no soneto de Duarte Gomes; desta feita, os papéis invertem-se, pois agora é o criador que elogia com grande generosidade, como talvez fosse de esperar, a sua própria criação.

Compreende-se assim perfeitamente aquilo que G. Zavan designou, ainda que com muitas reservas, como «Un raro esempio de generosità letteraria»[55]. De facto, não seria muito crível, se fossem pessoas distintas, que Salusque não soubesse que Duarte Gomes era um tradutor talentoso de Petrarca, tal como Amato e Ruscelli já o haviam explicitado de forma clara; do mesmo modo, também não seria facilmente compreensível a excessiva generosidade materializada no soneto com que Duarte Gomes elogia a tradução do seu suposto compatriota.

 

Duarte Gomes é, decerto, uma figura central neste círculo literário veneziano. O humanista português funciona como uma espécie de elo de ligação privilegiado entre os vários elementos do círculo literário e a presença tutelar e mecenática da Casa Mendes-Benveniste, personificada nas figuras de Beatriz de Luna, alias Grácia Nasci, e de João Micas, alias Joseph Nasci. O feitor de confiança de Beatriz de Luna não era apenas um óptimo gestor, um homem de decisão rápida e de grande visão, enfim, um mercador consagrado e respeitado por todos. Além de reunir na sua pessoa todas estas qualidades, já por si assinaláveis, era também um indivíduo com uma cultura vastíssima, com múltiplas e distintas actividades, com um gosto acentuado pela literatura, sobretudo pela poesia. Trata-se, de facto, de uma figura extraordinária a vários níveis, que se move com enorme à-vontade no meio político, financeiro, cultural e literário de Veneza e de Ferrara de meados de Quinhentos.

Os elementos do círculo literário tinham, seguramente, a consciência perfeita de que Duarte Gomes era uma figura invulgar. Ludovico Dolce, Girolamo Ruscelli e Alfonso Ulloa, em várias obras, tecem-lhe rasgadíssimos elogios, não só às qualidades humanas, mas também à vasta cultura e ao enorme talento do poeta lusitano. Cada um deles dedica ao poeta-mercador uma das suas obras[56]. Além do soneto publicado na tradução castelhana da obra de Petrarca, a que já se aludiu, é forçoso referir também a publicação de um outro poema de Duarte Gomes numa colectânea poética organizada por Girolamo Ruscelli em honra de Joana de Aragão[57].

Como tem sido observado, talvez possa admitir-se algum interesse por parte dos membros do grupo em cair nas boas graças de Duarte Gomes, que podia financiar do seu próprio bolso a publicação das suas obras. Além disso, também se conjectura que o mercador português teria interesse em se inserir no meio cultural veneziano para assim ganhar mais credibilidade e notoriedade. Com efeito, não é de excluir que o estabelecimento de uma relação próxima com um dos principais feitores de D. Grácia Nasci possa ter constituído, para alguns dos escritores, um passo decisivo no sentido de obter o alto patrocínio da própria Casa Mendes-Benveniste.

No entanto, Duarte Gomes não era apenas um simples agente comercial da inteira confiança de D. Grácia Nasci, de quem era também médico particular[58]. Não restam dúvidas de que este judeu português era, de facto, um indivíduo excepcional com uma cultura e uma formação humanística do mais alto nível. Trata-se de alguém que elevou bem alto o seu nome junto dos círculos mais restritos do poder e da cultura durante os anos da década de trinta passados em Lisboa, a quem coube a distinção singular de proferir a habitual oração latina de sapiência, na Universidade de Lisboa, na abertura solene do ano lectivo de 1535[59].

Os membros da família Mendes-Benveniste, tal como os dirigentes da Nação Portuguesa, em geral, conheciam forçosamente o mérito do seu agente comercial enquanto humanista consagrado. Duarte Gomes estava bastante próximo de Beatriz de Luna e de João Micas, que o respeitariam tanto pelas suas reconhecidas aptidões para a administração dos negócios, como também por ser um verdadeiro homem de cultura e das letras. Por isso, é muito provável que Duarte Gomes tenha tido um papel de extraordinária importância na orientação dada à actividade mecenática dos Mendes-Benveniste. Não parece muito plausível, dadas as circunstâncias, que Beatriz de Luna ou João Micas patrocinassem a publicação da obra de um determinado autor ou favorecessem mesmo um género literário particular, sem ouvir primeiro a opinião credenciada de Duarte Gomes, uma espécie de conselheiro cultural da família. O respeito de João Micas por Duarte Gomes encontrava-se ainda reforçado pelo facto de este ter sido, à semelhança do pai daquele, o Doutor Agostinho Micas, um distinto lente da Universidade de Lisboa.

Beatriz de Luna e o seu sobrinho, João Micas são figuras a quem vários elementos do círculo literário veneziano enaltecem por meio de dedicatórias ou de referências laudatórias nas suas obras[60]. Alonso Núñez de Reinoso, como é sabido, dedica a João Micas a sua novela La historia de los amores de Clareo y Florisea y de la sin ventura Isea, publicada em 1552, nos prelos de Gabriel Giolito de Ferrari[61]. No mesmo ano, este impressor dá também à estampa uma obra de Ortensio Lando com duas dedicatórias dirigidas aos sobrinhos de D. Grácia Nasci, ou seja, a João Micas, alias D. Joseph Nasci (que se tornou mais tarde duque de Naxos), e ao irmão Bernardo Micas, alias D. Samuel Nasci[62]. O mesmo livro inclui também um poema «Del S. Alphonso Nunnez, de Reynoso al S. Hortensio Lando» (p. 56). Este autor dedica ainda uma outra obra a D. Beatriz de Luna, a qual contém uma carta laudatória do seu amigo Girolamo Ruscelli, com a data de 27 de Abril de 1552, endereçada também «Alla molto illustre et honoratissima S. la S. D. Beatrice de Luna[63]. Da mesma forma, entre as Lettere de Lucrezia Gonzaga, a que já se aludiu, há uma carta, datada de 12 de Maio, dirigida a João Micas[64].

As Lettere funcionam, por certo, como parte de um elaborado jogo literário e, como já foi notado, são essenciais para ajudar a compreender as relações entre Lando, os Mendes-Benveniste e Núñez de Reinoso. No que a este último diz respeito, deve mencionar-se ainda a existência de uma Lettere, com a data de 15 de Junho, onde aparece uma breve nota de agradecimento a Reinoso pela sua contribuição poética para a obra Due panegirici de Lando[65].

A troca de poemas entre os membros do grupo literário, de que Duarte Gomes é figura destacada, é uma constante. Girolamo Ruscelli contribui também com um soneto, sob o título «Di M. Lodovico Dolce in lode del Segnor Alphonso Nuñez de Reinoso», o qual saiu publicado na obra poética de Reinoso logo a seguir à dedicatória dirigida «al mismo Señor Juan Micas»[66].

Não se trata, porém, do único membro do grupo literário veneziano a contribuir com uma composição para o livro de Reinoso. A obra lírica de Reinoso apresenta também um longo poema, em língua castelhana, da autoria de Tomás Gomes intitulado «Al Sennor Alonso Núnnez de Reynoso, un amigo y servidor», a que depois se segue um poema-resposta do próprio Reinoso sob a designação «Alonso Núnnez de Reynoso al Sennor Thomás Gómez. Respuesta».

A identificação deste misterioso poeta tem ocupado alguns dos investigadores que mais têm estudado a obra de Reinoso sem, no entanto, ter sido encontrada uma resposta definitiva para a questão[67]. Neste momento, estão reunidas as condições para determinar com precisão a identidade desta misteriosa figura, que se apresenta como amigo chegado de Reinoso e profundo conhecedor das suas andanças e desventuras. Trata-se do judeu português Tomás Gomes que é, comprovadamente, um dos três irmãos de Duarte Gomes[68]. É assim possível concluir, de alguma forma, que Tomás Gomes pertencia também ao círculo literário veneziano, do qual o seu irmão era figura destacada.

 

Não é por demais recordar, porém, que a família dos Mendes-Benveniste, sobretudo Beatriz de Luna e João Micas, não concede o seu alto patrocínio unicamente ao círculo literário veneziano, onde Duarte Gomes é figura de proa. De facto, constitui-se em Ferrara, também por meados do século XVI, um outro círculo literário com actividade editorial própria, extremamente activo, encabeçado pela figura de Abraão Usque, alias Duarte Pinel. Havia contactos frequentes entre alguns membros do grupo de Veneza e de Ferrara, tanto mais que muitos deles eram judeus portugueses e velhos companheiros no longo caminho, que os tinha trazido desde as terras lusitanas até às italianas. O próprio Duarte Gomes viveu algum tempo em Ferrara e, não obstante a sua fixação em Veneza como feitor de D. Grácia, deslocava-se com frequência ao Ducado Estense, onde era figura bastante respeitada, a ajuizar pelos testemunhos prestados nos seus dois processos no S. Uffizio di Venezia.

A actividade mecenática dos Mendes-Benveniste não se restringia ao círculo veneziano, pois também se fazia sentir, quase em simultâneo, sobre as actividades e as publicações do grupo de Ferrara. O exemplo mais paradigmático deste patrocínio está materializado na dedicatória a D. Beatriz de Luna, inscrita na obra-prima saída da tipografia de Abraão Usque – a monumental Bíblia de Ferrara[69]. Um segundo exemplo também bastante significativo é o da Consolação às Tribulações de Israel dedicada por Samuel Usque «A illustrissima Senhora Dona Gracia Nasci»[70]. O autor não esconde a sua grande admiração por D. Grácia que considera ser o esteio da Nação Portuguesa:

 

 Sendo o meu primeiro yntẽto servir cõ este piqueno ramo de fruta nova a nossa naçaõ Portuguesa, era justo offerecelo a Vossa Excelẽcia como ao coraçaõ deste corpo pois nos remedios que aveis dado sentistes e ynda sentis seus trabalhos mais que algũ outro.[71]

 

O próprio Amato Lusitano também dirige a sua Curationum Medicinalium Centuria Quinta a D. Joseph Nasci, através de uma carta dedicatória, muito sentida, em que relata como perdeu a totalidade dos seus haveres na apressada fuga para Pesaro, após o início do terrível processo que culminou com a morte de dezenas de judeus portugueses nos tristemente célebres autos-de-fé de Ancona. Além disso, nessa mesma carta, o médico e humanista albicastrense afirma ainda ter feito uma tradução de Eutrópio, «in linguam Hispanam», dedicada, de igual modo, ao sobrinho de D. Grácia, da qual não se conhece exemplar algum.

É fácil de ver que se albergam debaixo da protecção e do patrocínio dos Mendes-Benveniste, quer os membros do círculo de Veneza, quer os de Ferrara. Já se constatou que Duarte Gomes é uma figura central no grupo de Veneza e que mantinha, evidentemente, contactos frequentes com os elementos de Ferrara.

 

A comparação da actividade editorial dos dois grupos retrata na perfeição uma das realidades mais complexas da criação literária portuguesa do século XVI – o bilinguismo português-castelhano, que extravasou as fronteiras de Portugal, na companhia de algumas das suas mais ilustres figuras[72].

Os judeus portugueses que se viram forçados a abandonar o país, sobretudo a partir da década de trinta, não levaram consigo apenas uma vaga recordação da pátria. Com eles partiam também, nas urcas saídas do Tejo, uma cultura e uma língua que estava a despontar nos alvores de Quinhentos para as mais perfeitas realizações literárias, de que a epopeia camoniana viria a ser o modelo indiscutível.

No entanto, sobretudo desde o século XV, alguns dos mais consagrados escritores portugueses, com especial incidência para os poetas, compõem as suas obras, tanto em português, como em castelhano, num movimento gradual que se vai acentuando ao longo do século XVI, cujo ponto culminante é, em consequência do trágico desaparecimento de D. Sebastião em Álcacer-Quibir, a própria união ibérica ocorrida em 1580. Concretizava-se, então, aquele que fora um dos sonhos mais acalentado por D. Manuel, em nome do qual se deu a expulsão dos judeus de Portugal e a conversão geral.

As intensas e constantes relações entre os reinos ibéricos criaram em Portugal, durante décadas, uma corte bilingue, que potenciou naturalmente o bilinguismo revelado por alguns dos nossos maiores escritores dos séculos XV e XVI. O meio universitário constituiu um outro factor determinante neste fenómeno, porque inúmeros alunos e professores portugueses frequentavam as mais reputadas universidades espanholas, de entre as quais Salamanca era, nessa época, a mais conceituada. Do mesmo modo, também eram chamados a leccionar em Portugal mestres vindos de Espanha. Os cristãos-novos portugueses que pretendiam obter formação superior repartiam-se, em grande medida, por duas instituições: a Universidade de Lisboa/Coimbra e a de Salamanca.

Já vários poetas do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, publicado em 1516, compunham os seus poemas em português e castelhano, o mesmo acontecendo com nomes consagrados da literatura portuguesa como Gil Vicente, Sá de Miranda, Pero de Andrade Caminha, Diogo Bernardes ou mesmo Camões. Outros havia que se revelaram defensores intransigentes da língua portuguesa como Fernão de Oliveira, João de Barros, Jerónimo Cardoso ou António Ferreira, ou que apenas escreveram na sua língua materna, como sucede com Bernardim Ribeiro. Ao invés, Jorge de Montemor é o exemplo perfeito daqueles que adoptaram o castelhano como a língua base de expressão literária[73].

Os cristãos-novos portugueses, enquanto escritores, não estavam decerto imunes a este confronto linguístico que se travava no plano da produção literária portuguesa. Os autores estavam muitas vezes condicionados por múltiplos e complexos factores a ponderar o uso do português ou do castelhano, numa decisão nem sempre fácil que podia decorrer, entre outras razões, da tradição do próprio género literário escolhido, do público a quem se destinava a obra ou, tão-só, da competência linguística do autor. O bilinguismo vai colocar-se também ao nível da tradução de obras escritas originalmente em outras línguas como o latim ou o italiano.

Assim se pode compreender, por exemplo, a escolha do castelhano por parte de Duarte Gomes na maior parte da sua produção poética e, em particular, na tradução do Canzoniere de Petrarca. Por detrás da opção evidente de Duarte Gomes pelo castelhano encontra-se, seguramente, este confronto linguístico-literário que há muito se vivia em Portugal. Acresce ainda que o tradutor tinha estudado muitos anos no Estudo de Salamanca, como ele próprio comprova com a apresentação dos títulos dos bacharelatos em Artes e Filosofia, e Medicina, transcritos in extenso no seu processo veneziano, pelo que o castelhano não era para ele propriamente uma língua desconhecida. Por último, é forçoso considerar ainda que o número de leitores potenciais de uma tradução castelhana de Petrarca seria bem maior do que de uma tradução portuguesa, pois o castelhano era, à época, uma língua indiscutivelmente mais prestigiada e falada do que o português.

Os judeus portugueses dos círculos literários de Veneza e de Ferrara carregam consigo a velha questão do bilinguismo português-castelhano, que assumiria ainda mais agudeza para aqueles que eram descendentes de judeus castelhanos. Há uma orientação linguística diferenciada nos dois grupos, porquanto o de Duarte Gomes adopta quase em exclusivo o castelhano nas suas obras, com excepção dos autores italianos, enquanto Duarte Pinel, em Ferrara, dá à estampa livros em castelhano, português e, sobretudo, em hebraico[74].

O predomínio do castelhano no círculo de Veneza é visível na obra de Duarte e Tomás Gomes, de Alonso Núñez de Reinoso e ainda na fecunda produção de Alfonso de Ulloa, que traduz inúmeras obras do castelhano e do português[75] ao italiano e, vice-versa, do italiano ao castelhano. Do lado de Ferrara, continua a verificar-se, em grande medida, a adopção do castelhano, mas pressente-se, em parte, uma orientação linguística distinta de alguns autores, em defesa da língua portuguesa. Esta defesa do português parece estar na base da publicação de duas das mais importantes obras da literatura portuguesa do século XVI: a Consolação às Tribulações de Israel de Samuel Usque e a História de Menina e Moça, do enigmático Bernardim Ribeiro[76], à qual se juntou a Egloga de Cristouam Falcam chamada Crisfal.

Não deixa de ser curioso assistir à reedição deste antigo confronto linguístico em terras italianas, que não passa, aliás, desse campo, como não deve deixar de ser sublinhado. No fundo, o bilinguismo português-castelhano que emerge da literatura portuguesa de Quinhentos transferiu-se, em plena década de cinquenta, para Veneza e Ferrara. Afinal, também para lá haviam ido algumas das mais notáveis figuras da cultura e da literatura portuguesas.

Samuel Usque apresenta-se como um dos defensores da valorização da língua materna como língua literária. Opta deliberadamente por redigir a sua Consolação às Tribulações de Israel em português, apesar das fortes pressões de alguns que o tentaram convencer a adoptar o castelhano. É o próprio autor que dá conta disso mesmo, de forma clara e inequívoca, no final do prólogo dirigido «Aos Senhores do Desterro de Portugal»:

 

          Algũs señores quiserom dizer antes que soubesem minha razam, que fora milhor auer cõposto em lingoa castelhana, mas eu creo que nisso nam errey, por que sendo o meu principal yntento falar cõ Portugheses e representando a memoria deste nosso desterro buscarlhe per muitos meos e longo rodeo, algum aliuio aos trabalhos que nelle passamos, desconueniente era fugir da lingua que mamey e buscar outra prestada pera falar aos meus naturais.[77]

 

Não nos surpreenderia que, entre os ‘Senhores’ que quiseram convencer Samuel Usque a escrever em castelhano estivessem alguns dos elementos do círculo de Veneza, em particular o próprio Duarte Gomes. As palavras transcritas são bastante claras. No entanto, têm dado azo a algumas conclusões precipitadas sobre o predomínio do castelhano sobre o português e sobre a assunção do castelhano «como lingua principale della diaspora sefardita» as quais, em nossa opinião, devem ser relativizadas, sobretudo no que toca às comunidades ponentinas[78].

Na realidade, Samuel Usque afirma claramente que não vai prescindir da língua materna, que é utilizada pelos seus naturais, para usar uma língua emprestada, ou seja, não vai abdicar do português para usar o castelhano. A literatura em língua castelhana alcançou, como se disse, grande difusão em toda a península, acentuada em Portugal pela questão do bilinguismo literário. Não se estranha, por isso, que os cristãos-novos portugueses dominassem na perfeição a língua e a literatura castelhanas. Duarte Gomes e Abraão Usque demonstram-no, em concreto, ao usar esse idioma nas suas obras, e Samuel Usque deixa-o entender perfeitamente, quando admitiu como exequível a hipótese de ter escrito a Consolaçam em castelhano.

O bilinguismo português-castelhano é uma questão que, em Portugal, nunca se colocou quanto à língua comum de comunicação, mas apenas no âmbito da criação literária. E, com certeza, não se colocava também aos milhares de judeus portugueses que constituíam as comunidades sefarditas de Antuérpia, Ancona, Ferrara ou Veneza. Já o mesmo se não pode dizer, porém, em relação à língua adoptada nos textos de pendor literário e religioso.

A questão do bilinguismo castelhano-português coloca-se directamente no caso das obras literárias, que oscilam entre uma e outra língua. A adopção quase generalizada do castelhano, em detrimento do português, na tradução da Bíblia de Ferrara e nos livros de orações publicados em Ferrara ou em Veneza representa, quiçá, o problema mais complexo, para o qual têm sido aventadas algumas respostas[79]. Deve sublinhar-se, no entanto, a existência de livros de orações manuscritos também em língua portuguesa, dos quais se conhecem alguns exemplos à guarda da Biblioteca Comunale de Piacenza, da British Library e da Biblioteca Rosenthaliana[80].

As comunidades sefarditas italianas, que se constituem no decorrer do século XVI, são constituídas, como é sabido, em grande medida por judeus originários de Portugal. Aqui estão incluídos, evidentemente, os membros da significativa comunidade judaica que há séculos vivia no país e também o contingente de judeus provenientes sobretudo de Castela e de Aragão, que entrou em território nacional após a ordem de expulsão de Espanha, em 1492. Estes últimos foram-se integrando no novo país de acolhimento, onde viveram, em relativa paz, durante mais de quatro décadas.

As comunidades sefarditas italianas apenas começam a ganhar uma expressão numérica já significativa, grosso modo, a partir de finais da década de trinta, com a chegada de milhares de pessoas que seguiram o mesmo caminho difícil que Samuel Usque experimentou e tão bem descreveu (Portugal–Antuérpia–Lombardia–Veneza/Ancona/Ferrara). São estes, em suma, os portugueses a quem Samuel Usque se dirige na língua que é tanto sua como deles.

A fuga maciça de Portugal a caminho de Antuérpia apenas teve início em meados da década de trinta, quando já decorriam na Cúria Romana as duras negociações para o estabelecimento da Inquisição em Portugal, na presença dos representantes de D. João III, do Papa e dos cristãos-novos. Nesse momento, tinham decorrido já cerca de quarenta anos, desde a chegada dos judeus de Espanha, em 1492, e muitos dos seus descendentes tinham nascido e crescido em Portugal, tendo adoptado o português como língua materna.

Não restam dúvidas, portanto, de que os numerosos membros da Nação Portuguesa estabelecidos em Ancona, Ferrara ou Veneza falavam entre si correntemente em língua portuguesa e não numa outra prestada, para usar as palavras de Samuel Usque, que demonstra uma leitura perfeita da situação[81]. Essa era a língua materna da grande maioria dos que integravam as comunidades sefarditas de Inglaterra, Países Baixos e Itália. Era também essa a língua com que D. Grácia se dirigia aos seus naturais, quer fossem familiares ou simples compatriotas. A língua que levaram de cá aqueles que partiram para Londres, Antuérpia, Ancona, Ferrara ou Veneza, foi, inquestionavelmente, a portuguesa.

 

Por outra parte, deve notar-se que, seja em Veneza, seja em Ferrara, existe a mesma predilecção pela poesia bucólica e pela novela sentimental, géneros que já eram cultivados pelos poetas lusitanos, tanto em português, como em castelhano[82]. De uma parte, temos a obra de Reinoso, em castelhano, e de outra, como que em contraponto, a de Bernardim, em português. A publicação tanto da obra de Reinoso, em Veneza, nos prelos de Giolito, como da de Bernardim, em Ferrara, nos de Abraão Usque, não se terá ficado a dever, decerto, a um mero acaso[83]. O bucolismo adquire também uma importância indesmentível na Consolaçam de Samuel Usque, quanto mais não seja porque a estrutura da obra assenta sobre um diálogo pastoril[84]. O mesmo se deve dizer, com mais propriedade ainda, da Egloga de Cristouam Falcam chamada Crisfal, impressa em conjunto com a obra de Bernardim. A propensão para cultivar ou privilegiar estes géneros nas traduções é também extensível aos demais elementos do círculo literário de Veneza.

 

            A obra-prima saída dos prelos de Abraão Usque foi, sem dúvida, a monumental edição, em 1553, da magnífica Bíblia de Ferrara, «traduzida del Hebreo palavra por palavra» em castelhano, língua que detinha, à época, muito mais prestígio do que o português e, naturalmente, um público potencial bem mais numeroso. No entanto, por detrás da edição da Bíblia, encontram-se quatro judeus portugueses, a saber, Duarte Pinel (Abraão Usque), Álvaro de Vargas (Yomtob Atias), Jerónimo de Vargas[85] e, na fase inicial do processo, Diogo Pires (Isaia Cohen)[86].

 

 

 

 

Frontispício da Bíblia de Ferrara, saída dos prelos de Abraão Usque, em 1553

(Uma nau, em meio de mar encapelado, ostenta no cimo do mastro a esfera armilar)

 

Nos primeiros dias de Novembro de 1551, Diogo Pires dirige-se ao Duque Ercole II, em conjunto com Jerónimo de Vargas, no sentido de lhe recordar o privilégio que lhes havia sido concedido de publicar «libri massime spagnoli». Nessa ocasião, manifestam ao Duque a intenção de vir a publicar a famosa Bíblia de Ferrara, da qual Diogo Pires pode ser considerado, justamente, co-editor. A publicação teve, no entanto, alguns contratempos, de que resultou um litígio judicial entre os dois promotores da edição e os tipógrafos, acusados de não cumprirem os prazos acordados para a execução do trabalho.

Recorde-se que D. Beatriz de Luna se encontrava em Ferrara desde os primeiros meses de 1549, na companhia da filha e de inúmeros colaboradores, tendo a seu cargo a direcção dos negócios